(foto:reprodução/TV Globo)


Moacyr Franco tem a veia artística saltada nos braços que pintavam placas no interior de Minas, ainda menino. Cedo ainda, já fugia dos destinos certos que a vida sem perspectivas esfrega na cara das pessoas. Dia desses, em uma entrevista a O Globo, se queixou do esquecimento a que tem sido relegado. 84 anos, uma vida de realizações em áreas correlatas, sempre atuando em mais alto nível, o que é muito difícil de se conseguir, quando se é multifacetado como Moacyr é. O cantor exibe uma serpente interminável de álbuns, compactos e sucessos. O compositor vislumbrou a onda sertaneja mesmo antes que ela se formasse como fenômeno de massa, emplacando hits regravados à exaustão. Mas inteligente o suficiente para ficar entusiasmado com o aceite de Rita Lee para gravar uma composição sua, Tudo Vira Bosta, já no terceiro milênio. O apresentador passou por Globo, Band, SBT, com um público fiel. O humorista, talvez a faceta mais reconhecida, criou tipos que atravessaram gerações. O redator (atividade que lhe é mais cara) trabalha incansavelmente. O que falta, então, a Moacyr?

O talento pulverizado em tantas carreiras que se cruzavam em uma principal talvez tenha menos reconhecimento do que merecia. Certamente não ajudou a passagem pífia pela política (foi eleito deputado federal por São Paulo, em 1982), mas basta vê-lo atuando para perceber que ali está um artista completo. Com a sensibilidade apurada, Moacyr fez de seu personagem em O Palhaço, dirigido por Selton Mello, com parcos 3 minutos de atuação, um momento tão marcante que valeu prêmio de melhor ator coadjuvante em Paulínia. De cá para lá já se passaram 10 anos. Mais uma década de carreira, iniciada ainda nos anos 1950. E impressiona que a evolução não pare. E que os desafios aumentem. 

É quando Moacyr entra em cena, na segunda temporada de Segunda Chamada (Globoplay), fazendo Gilsinho. Um aluno novo que chega à escola com atritos, e uma doença que impõe que todos ao redor saiam de suas zonas de conforto (se é possível existir alguma em uma escola de periferia com aulas noturnas). O portador de Alzheimer de Moacyr Franco arrebata logo nos primeiros instantes. Ali está um artista brasileiro que merece assim ser chamado com todas as letras. E que torna difícil a tantos com algum senso comparativo usar o termo para referirem-se a si mesmos desta forma. Moacyr nunca decepciona. O compositor de Tudo Vira Bosta faz com que tudo vire arte.


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Ernesto Wenth Filho - 27/09/2021 13h55
Belo texto sobre o Moacyr Franco, que sempre gostei e admirei muito. 😊👏🏻👏🏻👏🏻
Celio Dutra - 27/09/2021 11h23
Belo texo e homenagem, meu amigo. O esquecimento dele, evidencia que, com o passar do tempo, a mídia, e por tabela, nós; está valorizando artistas de gostos duvidosos. Que não constroem, e não nos agregam nada de valor. É a celebração da decadência...
Raulino Pedro Gonçalves - 26/09/2021 08h47
Que legal. Conheçlci algumas faces do Moacyr Franco, mas não sabia de sua origem. Me identifiquei com a pintura de placas aí da menino. Fiz algo parecido na juventude.
Edilson - 25/09/2021 18h57
Como sempre, um grande texto Roberto. Uma das empresas em que trabalhei, fez um jantar de lançamento de uma linha de produtos tendo Moacyr Franco como apresentador do evento onde ele mostrou todo seu talento cantando, fazendo um stand up e conduzindo tornando o evento um verdadeiro e diversificado show. Um grande artista brasileiro.
Rosangela Koch - 25/09/2021 16h45
🤩👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏Amei!!!! Sucesso!!!!