
(foto: Fernando Young/divulgação)
Provavelmente Gilberto Gil não apresentará no próximo domingo, dia 10, em Luxemburgo, uma das canções mais importantes da música brasileira em toda a sua história. Domingo no Parque deu cores vivas ao movimento tropicalista que avançava em 1967, quando a canção magistralmente interpretada por Gil e Mutantes emocionou os presentes no Teatro Record, na final do III Festival da MPB. Ainda em outubro, dia 21, esta noite memorável da música produzida no Brasil completará 54 anos, e a carreira de Gilberto Gil passou por tantas fases desde então que, naturalmente, a canção acabou ficando desconectada das produções mais recentes de GG. Ele não a cantou nos shows antes da pandemia, não cantou em Nantes, no show da semana passada, e não cantará, quase certamente, em Lux. Mas quem a ouve, pela primeira vez, ainda sente o impacto da narrativa cinematográfica, crua, poética, brejeira e trágica. Os sorrisos jovens de Gil, Arnaldo, Sérgio e Rita não evidenciam a tensão vivida naquele palco, nem alguma certeza de que, ali, estava sendo feita História. E nem que um dos membros da santíssima trindade de MPB estava construindo um trono que seria seu por décadas.
Gil passou da fase tropicalista à fase pop do final da década de 1970, com a aproximação do reggae e da disco, conseguindo fazer o crossover das AMs para as FMs que surgiam com absoluto sucesso, ao chegar ao público renovado que ouvia a rádio com som cristalino que saía dos alto-falantes dos carros equipados com tecnologia suficiente para vibrar com os acordes de Realce, a letra inovadora que falava em “bumbum de bebê”, em Palco, ou a campeã dos luaus vertida para o português em Não Chore Mais. Gil nem sempre acertou a mão, mas tentou sempre. Nunca se acomodou com as temáticas bem-sucedidas, ou o formato sonoro que havia caído no gosto do público. Envolveu-se com a política, e, caso raro, não saiu pior do que entrou. Ao contrário, provoca saudades sabermos que tivemos um ministro da Cultura com tamanha capacidade para exercer a função, sem contar a estrada percorrida e a folha de serviços.
Na retomada dos shows, aquecendo as turbinas e acolhendo o público sedento por música, sobretudo com a qualidade de quem tem seu talento atestado em uma carreira tão feliz, é impossível não vislumbrar o mesmo sorriso do menino baiano que encantava em São Paulo mais de 50 anos atrás e certamente adentrará o palco da Philharmonie provocando a mesma reação nos presentes. Gil é a mostra de que o melhor do Brasil está aqui.
ROBERTO VIEIRA
Roberto Vieira é diretor da BRio, radialista, publicitário e autor de No Tempo do Mundo - Crônicas de um Locutor que Escreve, disponível para compra em https://amzn.to/2ZGGt09
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Que ele cante Drão,por muitos palcos deste planetinha