(divulgação/Companhia das Letras)

Não é de hoje que Chico Buarque vem dando mais ênfase em sua carreira literária do que na música. Desde que lançou seu primeiro romance, Estorvo, em 1991, lhe rendendo o primeiro Jabuti, até Anos de Chumbo e Outros Contos, recém lançado, já foram 10 títulos, superando sua produção musical no período. E se aventurando em novos formatos, pela primeira vez põe sua produção a serviço das narrativas curtas, em 8 contos perfazendo 168 páginas, pela Companhia das Letras.
O ideal é, ao começar o livro, se distanciar de toda a biografia do autor. Não é fácil nem ler já tendo ganho de goleada por tantas maravilhas compostas, nem comparar os escritos com elas, o que tende a ser decepcionante. Chico não contribui: em O Passaporte, é impossível não vincular o conteúdo autobiográfico e as agressões sofridas nos últimos tempos devido às posições políticas do cantautor. O futebol, uma das paixôes maiores de Chico, tantas vezes cantada por ele, está latente em Os primos de Campos, com o apreço pelo Fluminense e pelos dribladores que viu pelos campos.
O Rio surge nas suas mazelas e maravilhas, e as milícias, tão marcantes no panorama da cidade que se esgarça, também; não há como dissociar o escritor do músico, inclusive nas escolhas dos temas dos contos. Chico joga para a torcida, tem a partida ganha, domina as palavras como poucos na língua portuguesa e não precisa se esforçar muito para entregar um livro interessante, bem escrito e fluente. 
O estilo de narrativa, em primeira pessoa, e com todo o suporte linguístico e o vocabulário que se apresenta homogêneo, para personagens tão diferentes quanto a jovem que abre o livro em Meu tio ou o poeta mesmerizado por Clarice Lispector pouco acrescenta às soluções mais inspiradas para os desfechos de cada história. Aliás, Para Clarice Lispector, com candura se sobressai justamente por ser tão verossímel e convergente, linguagem, trama e a descrição de Clarice, provavelmente baseado em uma experiência que Chico teve ao ser convidado pela indecifrável escritora para um jantar -um não-jantar, na realidade-, fazendo uso da personalidade enigmática que ela exibia para construir um protagonista marcante e crível. 
Anos de chumbo fecha, dá nome ao livro, e indica, vingativo, que o Chico que se divertia engambelando os militares com Julinho da Adelaide permanece ativo, pois o Brasil dá voltas em torno de si mesmo e não exige alternativas mais ousadas para descrevê-lo. Os fãs vão adorar, e os antagonistas de Chico não vão ler. Estão mais preocupados com SUVs.



ROBERTO VIEIRA

Roberto Vieira é diretor da BRio, radialista, publicitário e autor de No Tempo do Mundo - Crônicas de um Locutor que Escreve, disponível para compra em https://amzn.to/2ZGGt09


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