Já fazia 9 anos desde que Abraçaço foi lançado, e Caetano estava mais presente nas telas e fones das pessoas, infelizmente, por processos judiciais envolvendo o filósofo do presidente do que por sua música, patrimônio imaterial brasileiro. É bem verdade que Narciso em Férias, documentário que estreou ano passado pela Globoplay trouxe um depoimento precioso sobre sua prisão pela ditadura militar e o processo criativo daquela época, sendo impossível não se emocionar com a inspiração para a criação de Irene, uma de suas canções mais solares, feito em meio ao cinza de uma fase tenebrosa para o Brasil. 

Mas um novo álbum chega, e é hora de conferir como Caetano Veloso se relaciona com tantas coisas que vivenciamos nesta quase década de tantas e cruciais mudanças. Meu Coco abre com a faixa-título, verborrágica, sociológica, antropologicamente narrando o Brasil como Caê gosta de fazer, explicando o país a partir de suas próprias raízes. A amálgama de raças, influências e auto referências, que vai divertir o fã que, à moda dos beatlemaníacos, procura os sinais de correlação com obras anteriores, afetos e desafetos em letras derramadas em músicas assim.

Com Anjos Tronchos está de volta o Caetano ligado às coisas da modernidade, transcrevendo para sua estética o mundo que o cerca. Ele não conseguiu incluir o metaverso, tão decantado após a jogada de marketing de Zuckerberg, mas mantém na música seguinte uma tradição de homenagear a música brasileira e seus artífices em GilGal.

Cobre é lírica, inspirada, começa balada, evolui para uma bossa e faz lembrar canções de amor que ele produzia no começo dos anos 1980, que fizeram com que Caetano ficasse mais conhecido pela geração que iniciava a inserção na música via FMs, que se popularizavam.

Depois de muito tempo, de vários álbuns, Meu Coco concede aos fãs antigos 12 doses de que se pode considerar a típica música caetanista, com as introspecções, baianidades (que Pardo, invocando com o acompanhamento rítmico a mescla à letra que versa sobre a mistura racial), o samba que formou sua persona musical, na solar Sem Samba Não Dá.

Não Vou Deixar é a preferida de Caetano, e a mensagem é direta a Bolsonaro e uma reação ao estado de coisas atual reinante no Brasil, com uma citação a Chico indireta e à sua motivação ao escrever Apesar de Você. Homenagem à resistência que a MPB encampou à ditadura militar, mostra disposição para não permitir que a história se repita, pedindo reflexão e reação.



ROBERTO VIEIRA

Roberto Vieira é diretor da BRio, radialista, publicitário e autor de No Tempo do Mundo - Crônicas de um Locutor que Escreve, disponível para compra em https://amzn.to/2ZGGt09

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