(reprodução/YouTube)

2021 será um ano marcante para os beatlemaníacos brasileiros. Se passou longe do Brasil à época ter um show deles, já que foram apenas dois anos de turnês que englobavam a América, mas sem sequer pensar em passar pelo Sul, tivemos uma embaixatriz na pessoa de Lizzie Bravo. A brasileirinha que pediu uma viagem a Londres como presente de aniversário passava dias à frente da Apple. Até ser chamada por Paul para fazer vocais junto de uma amiga em Across the Universe. Um lance de roteiro hollywoodiano. Daqueles filmes de passar na Sessão da Tarde. Sem o take gravado pela brava Lizzie, limada pelo produtor Phil Spector, a canção singela de Lennon foi parar em Let It Be, junto a músicas trabalhadas nos ensaios para o projeto Get Back. Que virou um documentário de quase 9 horas, lançado recentemente pela plataforma Disney Plus.
Assim, perdemos Lizzie este ano, ganhamos um doc que nos aproximou de uma forma nunca vista aos fab four. Pois os Beatles, nos anos 1960, apesar de toda a exposição possível, nunca tinham sido esquadrinhados de maneira tão integral. Eram tempos em que a mídia, eletrônica e impressa, tinha muitas limitações que as redes sociais de hoje desconhecem. 
Peter Jackson se debruçou sobre o material e trouxe um extrato das relações que permeavam o encontro improvável de três gênios musicais e um gênio das relações humanas. Ao ver Get Back fica fácil entender porque Ringo era tão amado pelos outros três, e porque foi o único a se manter amigo de todos, em todas as fases. A grandeza dele transparece nas brincadeiras com Heather, a filha de Linda, na exposição humilde de suas tentativas de compor, na sua participação como baterista envolvido em uma trama de egos em conflito, atrás de uma tapadeira indigente ao redor de seu instrumento, em tais condições que seriam hoje inconcebíveis no estúdio da principal banda do planeta. 
Get Back, com sua imersão no cotidiano de uma banda confinada em um estúdio, pressionada por prazos, por interesses e personalidades que se expandiam em direções diferentes daquelas que uniam quatro moleques saídos de uma operária Liverpool ensina muito sobre a alma humana sem nunca ser moralista ou piegas. E nos faz querer voltar no tempo e pleitear, por motivos diversos, a amizade do John sempre pronto a uma brincadeira, do George do talento subaproveitado, do Paul sempre disposto a puxar a fila e que já se vislumbrava como o showman incansável capaz de ser o frontman de um show de mais de 3 horas de duração, já septuagenário, como o que eu vi em São Paulo. 
Mas Ringo é de outra natureza. É como se tivéssemos um amigo brasileiro nos Beatles.
Em tempo: não toca Beatles na BRio, que prioriza a música brasileira. Mas o que eles fizeram é tão forte e com tantas ramificações que a programação reúne influenciados por eles e versões tão inspiradas como as gravadas pela fã #1, Rita, ou You’re Going to Lose That Girl, dos paulistas do Música Ligeira.



ROBERTO VIEIRA

Roberto Vieira é diretor da BRio, radialista, publicitário e autor de No Tempo do Mundo - Crônicas de um Locutor que Escreve, disponível para compra em https://amzn.to/2ZGGt09