
Assisti hoje a um filme com a Natalie Wood e o Steve McQueen. De 1963. Em uma cena, os dois estão na rua, em Nova Iorque, e por detrás deles, passa um ônibus. No busdoor lateral, um anúncio falando de ‘Bossa Nova’. Para quem nasceu em um mundo globalizado, difícil conceber a dificuldade de comunicação em um sistema em que nada estava interligado. Um telefone, de disco, só conseguiria se conectar a outro, nos EUA, com o auxílio de uma telefonista que, numa imagem que costumamos ver com assombro, precisava plugar um cabo a uma tomada para que isto acontecesse. Bem diferente das videochamadas que qualquer criança faz hoje em dia. Um embate entre Flintstones e Jetsons. O que torna ainda mais impressionante a façanha de um movimento musical nascido em um apartamento de Copacabana. De uma menina que apresentava aos amigos, como Roberto Menescal, o jazz.
A menina está descrita no documentário em cinco episódios O Canto Livre de Nara Leão. Ela se desenvolveu a ponto de se tornar uma das principais cantoras do país e, como é depreendido pelos depoimentos de amigos, parceiros e familiares, já tinha opiniões fortes antes mesmo de aparecer para o grande público e confrontar a ditadura militar com elas, já mulher feita. De violão nas mãos. Dona de seu destino. Mas nada disso é feito com rudeza. Nara é doce, até quando é dilacerante em críticas do movimento que a tornou conhecida ao Exército, com posições que gerariam controvérsia até hoje.
Eram dias difíceis. Enquanto NY era apresentada ao ritmo que se espalharia pelo planeta, levando ao mundo a sonoridade de um país tropical, com ternura e o brilho de uma era JK com ânsia de modernidade e vitórias no esporte, com o futebol, o basquete, o tênis e outras modalidades exibindo campeões mundiais, o Brasil se encaminhava para o chumbo de um movimento militar cruento e rancoroso.
No Brasil de 2021, ver a leveza de Nara, a gênese da Bossa Nova, ouvir os sons de uma geração liderada pelo gênio de um Tom Jobim, com a criação de uma batida revolucionária por um baiano de Juazeiro, João Gilberto, e confrontar o Rio de Janeiro solar, estimulante e criativo com a realidade atual nos faz ter saudade de um tempo em que sentir orgulho do Brasil era tão fácil quanto hoje é duvidar das perspectivas de um país que se afasta, cada vez mais, do tempo da delicadeza.
ROBERTO VIEIRA
Roberto Vieira é diretor da BRio, radialista, publicitário e autor de No Tempo do Mundo - Crônicas de um Locutor que Escreve, disponível para compra em https://amzn.to/2ZGGt09
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Parabéns, Roberto! Mais um belo texto e uma visão precisa das coisas. Não pare! Sucesso!
Parabéns!!!!