Chega a época de Páscoa e saio batendo a cabeça nos ovos expostos nos supermercados. Ou melhor, saía: Aqui na França e em Luxemburgo não se tem este costume de fazer céus de ovos para os acima de 1,80 irem partindo-os antes da venda. Mas continuo me lembrando dos bons tempos em que sair no domingo de manhã revirando o jardim e fitar a alegria de minha mãe ao ver o resultado de seu trabalho virar uma experiência única, que se repetiria até o momento em que as ilusões dessem lugar à vida real.

Mas além do Natal e da Páscoa, minha vida no subúrbio reservava outra data de cravar na memória: a chegada do meu tio Zé de Piracicaba.

Zé ele era, mas um Zé muito diferente dos tantos que havia perto de nós. Sapatos de cromo alemão, paletó de lã, roupa impecável, bem cortada, passada, cabelos e bigode aparados e sempre no mesmo comprimento, os óculos de grossos aros negros. E um passado de militar, o que em plena época de ditadura poderia gerar algum calafrio. Distinto, leitor de jornais, com um vocabulário diferenciado, meu tio era um bombeiro reformado. Mas não se impressione com a descrição que fiz até agora: ele abria a porta da sala, entrava, me via e soltava:

-Primo riiiiiiiiiiiiiiiiico!!!!!!! E me dava um abraço apertado.

É claro que eu só entenderia muito tempo mais tarde que essa saudação era derivada do quadro lendário que Brandão Filho e Paulo Gracindo faziam no antigo Balança Mas Não Cai. Seria engraçado ainda mais, por ele ser o rico da história, e nós, os pobres. Mas o estilo de vida dele em nada faria alguém pensar em ostentação. Sua diversão na risonha Piracicaba era pescar no rio. E emendar com uma caninha no boteco. Tinha uma aposentadoria polpuda, e adorava crianças. Assim, sempre que vinha passar uns dias conosco, caprichava nos presentes para mim e meus primos.

Um ano, bicicletas para todos. No outro, me levou a uma banca de revistas. Era a época de um álbum de figurinhas da Disney. Saí dali com o álbum e centenas de envelopes. Passei dias colando figurinhas. Dedo sujo de Tenaz, sorriso no rosto e meu tio feliz, vendo o Mundo Animal. Ria sozinho vendo as estrepulias de leões caçando zebras, banho de elefantes, macacos em algazarras, na programação matinal da televisão da época.

Em um ano, calhou da visita dele ser um pouco antes da Páscoa. Ele apareceu em casa com um ovo de chocolate que pesava 6 quilos. Nunca tinha visto nada parecido, e nunca mais veria, mesmo tendo atuado no ramo por mais de dez anos. Era inacreditável, e o ovo ficou no meio do quarto, pois não havia outro lugar possível. Eu acordava, brincava, colocava os carrinhos dentro e comia um pedaço. Semanas a fio. Todo mundo se locupletou com meu presente, mas a filha da dona do imóvel que ocupávamos, trocando o trabalho de minha mãe pelo aluguel foi a principal responsável por finalizá-lo. Eu também não fazia ideia da luta de classes, e o episódio não virou o ovo da revolução.

Meu tio se cansou da vida de solteiro, se casou com uma mulher que já tinha uma filha, e assim as visitas e os presentes rarearam. Um dia a sequência de cachacinhas cobrou seu preço e o tio Zé se despediu para sempre. Mas uma criança nunca esquece. E se o sorriso delas conta algo na hora do acerto de contas lá em cima, ele deve estar vendo o Mundo Animal em 8K na poltrona mais confortável que o home theater celestial possa proporcionar.



ROBERTO VIEIRA

Roberto Vieira é diretor da BRio, radialista, publicitário e autor de No Tempo do Mundo - Crônicas de um Locutor que Escreve, disponível para compra em https://amzn.to/2ZGGt09

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