
Uma amiga, viajada, cozinheira de primeira e do ramo me manda uma foto, comendo morangos na Bélgica e assinalando que, nas caixinhas, todos são da mesma qualidade, tamanho, sabor. No Brasil, aquela história: graúdos, vermelhos, vistosos em cima. No fundo da caixinha, passados, verdes, disformes. Todos estamos acostumados ao golpe. Não reclamamos mais.
A cada temporada, diminuição de peso nas embalagens, de forma que o consumidor leva menos para casa, a cada vez que o preço deveria aumentar. Um fabricante faz, os demais fazem igual, sob pena de levarem desvantagem na gôndola. No caso dos biscoitos, a Piraquê foi a última a manter suas tradicionais embalagens de 200 gramas, com o sabor mantido (e o preço, claro, por conta da qualidade dos ingredientes) de maravilhas de memória afetiva consagradas na infância feliz como a Leite Maltado e a Goiabinha. Isso até ser vendida para um grupo majoritário da indústria de massas. A qualidade caiu, o peso também.
A Garoto, igual. A Lacta, da mesma forma. O Sonho de Valsa foi dramaticamente descaracterizado ao perder o chocolate da cobertura e ter o ingrediente do recheio modificado. Entram gordura hidrogenada, mais barata, e amendoim, já que a castanha de caju tornou-se matéria-prima cara. Nem falo da embalagem antiga, com o bombom envolto em alumínio e depois com celofane. Meu filho tinha saudades do Sonho de Valsa, fomos procurar para comprar em lojas de artigos brasileiros em Luxemburgo. A resposta da comerciante foi surpreendente: era proibido vender, pois se tratava de gordura vegetal hidrogenada, não chocolate. É curioso notar, inclusive, que você consegue comprar 100 gramas de chocolate belga a 58 centavos de euro. Mesmo na conversão, ainda mais em conta que no Brasil se paga por um Alpino, da Nestlé, similar. Mesmo que a Bélgica não produza cacau.
Quando você começa a consumir os alimentos produzidos na Europa, você percebe o quanto foi lesado em reduções de peso, troca por ingredientes mais baratos ou, pior, adulteração com a adição de água, gordura, ou qualquer outro artifício para enganar o comprador. Sobretudo em produtos processados, a diferença é abissal. E não é necessário analisar muito a situação para chegar à conclusão de que este desrespeito ao consumidor vem da certeza de que não haverá chiadeira, boicote ou denúncia em relação aos fabricantes que reiteradamente ludibriam seu cliente: se políticos que como estelionatários contumazes prometem e não realizam, armam esquemas de corrupção gigantescos, desviam recursos ou assinam compromisso em cartório que não cumprem são reeleitos, o freguês vai continuar consumindo o produto da vigarice, dia após dia.
ROBERTO VIEIRA
Roberto Vieira é diretor da BRio, radialista, publicitário e autor de No Tempo do Mundo - Crônicas de um Locutor que Escreve, disponível para compra em https://amzn.to/2ZGGt09