
A gente só consegue se enxergar tomando distância. Houve um tempo em que farmácias eram escassas, e, aos finais de semana, havia uma, apenas, de plantão. Lembrei-me disso ao procurar uma, tarde da noite, ao sair do aeroporto de Fiumicino -o mais bonito, funcional e charmoso que já vi- e me deparar com um papel colado na porta da que ficava perto do hotel, indicando a tal farmácia de plantão a léguas de distância.
No Brasil, hoje, tropeçamos em farmácias. De um ano para cá, apenas no trajeto de um quilômetro que voltei a fazer em Navegantes, três novas abriram as portas. No tempo das farmácias de plantão, nossas mães e avós faziam uso de muitos remédios fitoterápicos, que resolviam boa parte dos pequenos problemas de saúde que agora as farmácias resolvem com toda sorte de droga. Alguns médicos fazem chacota desta sabedoria popular. A Europa, não: de livre acesso aos consumidores, apenas os bons e velhos chazinhos, tinturas, plantas em pó e pomadas com cânfora e outros unguentos. Minha avó guardava, com muito zelo, em um vidro usado de um perfume Avon, uma tal guaçatonga que era usada sempre que um dos netos fazia um galo, torcia o pé ou apresentava um hematoma vindo das brincadeiras insanas nas ruas de paralelepípedo da minha cidade natal. O resultado é que a farmácia, para minha avó, vendia, quando muito, um merthiolate, gaze e esparadrapo, além dos xaropes. A indústria farmacêutica certamente não aprecia guaçatongas, arnicas e chás de quebra-pedra, e deve adorar a nossa perda da capacidade de transmitir o conhecimento que nossa herança indígena nos trouxe e nosso apreço pela auto-medicação, o que faz com que drogarias se pareçam, cada vez mais, com supermercados onde se pode encher a cestinha (não vejo distante o dia em que teremos carrinhos à disposição) com toda espécie de fármacos. Aqui compramos livremente o que europeus limitam ou exigem receita médica para vender. Mas não devo generalizar: na farmácia de Fiumicino consegui comprar um medicamento que havíamos tentado, sem receita e sucesso adquirir na França, Luxemburgo e na Alemanha. Coincidência ou não, dos quatro países, a Itália foi o único que me mostrou calçadas inexistentes, ruas esburacadas, mato nos terrenos e alguma sensação que estava no Brasil.
Um youtuber desses deu chilique por não conseguir comprar paracetamol sem receita, dia desses, em Paris. Será que ele sabe que uma dúzia destas pílulas “inocentes” pode levar á morte? O que sei é que vivemos em um país cada vez mais doente e ignorante. E com cada vez mais farmácias.