Você pode dizer que ele vai morrer com o Spotify. Ele não liga: já disseram que ele ia morrer com a TV, com a web, e hoje ele completa 100 anos no Brasil, fazendo o que sempre fez, que é formar talentos, criar fenômenos de popularidade, ampliar horizontes, aguçar a imaginação, emocionar, interagir, inspirar. Programa de tv no formato rádio? Temos. Podcasts que nada mais são que os programas que já foram feitos à exaustão neste século? Também. Playlists que programadores cansaram de produzir com absoluta competência há décadas, ditando tendências, trazendo novidades, nostalgia, surpreendendo, com conhecimento técnico e cuidado ao juntar faixa a faixa, com apuro. 

Meu rádio de todos os tempos não abarcaria nem metade desta história, mas teria Zé Bettio me acordando com seu ambiente rural, conversando comigo como se eu não quisesse esganá-lo por ficar dando a hora certa o tempo todo e estimulando minha mãe a me apressar para a aula de Educação Física nas frias manhãs do inverno paulista, Silvio Santos onipresente do radinho de minha avó chamando Zora Ionara para falar do horóscopo do dia, a tensão de Gil Gomes ao narrar os crimes da cidade superpovoada, o sorriso saltando em ondas sonoras de Eli Corrêa, um Fausto Silva irritado ao ser apresentado nas transmissões esportivas com o tema do Capitão Gay, depois anárquico e cercado de office-boys, trombadinhas e toda a fauna urbana da Boca do Lixo (sem contar Tatá e Escova) no Balancê, a emoção de Osmar Santos, o mais completo narrador esportivo que o rádio brasileiro já produziu, as poesias caóticas de Oswaldo Maciel em partidas tenebrosas do Corinthians no Pacaembu, a revolução das FMs operada por Serginho Leite nas manhãs e suas imitações, paródias e participações inesquecíveis no Jovem Pan Disco Dance com Mike Nelson aka Djalma Jorge aka Tutinha, a 89 FM feita com tanta paixão, rock e irreverência por Luis Augusto Alper e Everson Cândido, a voz macia de Edinho Moreno emoldurando a programação eclética e selecionada da Eldorado FM e, claro, a rádio que me fez e me realizou por tanto tempo, que é a Univali FM.

Hoje é um dia especial demais. Escolhi a data em que o rádio brasileiro completa 100 anos para, pela primeira vez, colocar minha voz na rádio que já é minha paixão há um ano. A BRio finalmente sai da casca com meu piado, pianinho, mas louco para levar a muita gente o que o Brasil tem de melhor. Pois o que ele tem de pior já tem gente demais para levar adiante. Allez, BRio, da França e de Luxemburgo para todos os que quiserem ter um pouquinho de Brasil nos ouvidos.


ROBERTO VIEIRA

Roberto Vieira é diretor da BRio, radialista, publicitário e autor de No Tempo do Mundo - Crônicas de um Locutor que Escreve, disponível para compra em https://amzn.to/2ZGGt09