
(divulgação/Star+)
Por qual motivo grandes biógrafos como Ruy Castro e especialmente Fernando Morais, escritor de Chatô,obra que trata de um mito das comunicações brasileiras não se ocuparam de Silvio Santos e esmiuçaram a vida de um ex-camelô que se tornou o maior comunicador brasileiro em todos os tempos e único funcionário a virar dono de rede de televisão?
Dois motivos podem ser ponderados. O primeiro é a dificuldade de lidar com a família dos biografados. Muito difícil não se envolver em querelas, ameaças de processos, que o mercado editorial brasileiro, claudicante, não comporta. Outro é o desprezo que a elite cultural brasileira reserva a Silvio, e não é de hoje.
E por qual motivo falo disso antes de falar de O Rei da TV, série da Star+ que se dedica a contar a história de Senor, desde a adolescência pobre no Rio de Janeiro à rotina de trajetos Morumbi/Miami? Porque os mesmos motivos são visíveis na produção. que se ressente de uma produção mais caprichada, e, portanto, custosa, ao mesmo tempo em que se baseia em material bem pobre, literalmente falando, para contar esta história. Cheguei a ler uma das biografias de Silvio. E não me animei a ler mais nenhuma, apesar de ser um personagem importantíssimo na minha área e um manancial riquíssimo de passagens que, com um bom biógrafo, se tornariam um livro viciante, daqueles difíceis de largar.
Opções equivocadas como misturar características de vários personagens em um, sequências oníricas para um homem prático, pragmático, pouco dado a arte, e sim a business, uma tosquice a começar pela abertura, que remete, verdade, às piores coisas que o SBT produziu, mas que dificultam a digestão dos capítulos, com imprecisões cronológicas que irritam quem conhece a ordem correta dos acontecimentos e têm que alertar filhos e quem não conhece bem a trajetória de Sílvio a respeito, tudo isso vai minando o interesse em continuar a série, mesmo com algumas atuações muito boas, como as de Roberta Gualda como Cidinha, primeira esposa do apresentador, e um impressionante Augusto Liberato feito por Paulo Nigro.
Silvio, centralizador a ponto de mudar grade de programação na mesma rapidez com que vai ao Jassa, é retratado como um traído dentro do próprio SBT, ou um atormentado com a ideia de nunca mais poder apresentar um programa, justo ele, que foi superando toda e qualquer dificuldade que se impunha em seu caminho com uma vontade férrea. Um trabalho mais aprofundado de pesquisa (que um biógrafo de qualidade faria) teria se debruçado na gênese de tudo, a família de imigrantes Abravanel, em que duas culturas, turca e grega, se juntaram com os arquétipos judeus para fazer um self-made man à brasileira, ao qual nenhum brasileiro, mesmo os mais letrados, conseguiu ficar imune desde os tempos de Getúlio Vargas. Silvio Santos tem quase um século de história do Brasil correndo em suas veias, mas O Rei da TV expõe linfa, incolor, inodora, quase insípida. Não faz justiça à imensa complexidade do personagem.