Foto: Domicio Pinheiro


Tanto e tantos escreveram sobre Pelé. Se Nelson Rodrigues o fez, dificilmente algo mais se acrescentará. Sua crônica sobre o jogo em que destroçou o América praticamente zerou o jogo. Lá, ele chamou, antes dos franceses, de rei, vislumbrou o fim da viralatice (e criou o conceito) e, claro, anteviu as qualidades que fariam do Edison (era assim que Dondinho queria, brasileiramente com sobrenome inglês transformado em prenome) um mito. De verdade, não um artefato.
A capacidade de antever, criar, e, sobretudo, ferver. Pelé crescia quando contrariado. Misturava arte e operatividade em doses iguais. Por isso, qualquer comparação com qualquer outro jogador se faz inútil: o que falta neste vai sobrar em Pelé. E o que o catapulta, em Pelé certamente estava presente. O que tiver acima será insuficiente para igualar o restante, pois só se faz um jogador assim de uma ambição de chegar a ser completo. E Nelson Rodrigues enxergou isso (como tantas outras coisas) antes de todos.
Pelé é tão gigantesco que até suas falhas, humanas, não raras, e marcantes, ficam menores. Não há quem tenha passado ileso por ele, de 1958 para cá, e isso envolve boa parte da humanidade. No meu caso, provavelmente ao ouvir mais uma paródia que o mundo pré-web fazia viralizar no boca-a-boca. Quem é esse Pelé, que tomaria café? E devia tomar, mesmo, pois até um café com seu nome existe, oras...o menino que nada sabia de futebol já ouvia falar de seu rei. E assim seria, mesmo que ele já não jogasse mais e até evitasse, inteligentemente, que alguma exposição fora de forma fizesse borrar a imagem imaculada que multidões guardaram dele. Não foi técnico de futebol, não jogou mais nenhuma Copa depois do auge insuperável de 1970, aposentou-se na Flórida que a Big Apple construiu, uma Disneylândia chamada Cosmos. 
Pelé adorava música, e chegou a compor. Mas nossa homenagem vem em forma de tantas inspirações que ele provocou em quem realmente sabia o que estava fazendo nas quatro linhas de uma folha em branco, como Pelé fazia na relva verde. Seleção Brasileira, domingo, 18h, com citações a Pelé feitas por gente como Chico Buarque, Caetano Veloso, Herbert Vianna e tantos outros que colocaram esta palavra brasileira, presente no léxico da humanidade, em suas canções. Se tem um verbete originalmente brasileiro, genial e mundial, é este. É mais uma prova de que arte inspira arte, como aconteceu tantas vezes com Domicio Pinheiro, o fotógrafo que melhor captou Pelé, autor da imagem que ilustra esta crônica e de tantas outras que conseguiam fazer o impossível: marcar Pelé.

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